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sábado, 8 de outubro de 2016

O Rodopiar da Vida



“Rodopio, rodopio
E comigo giram silêncio e recordação
Rodopio, rodopio
E comigo girarão
A ponte, a praça, o recife
Poeira, vento e verão”
(Audálio Alves)

Uma reflexão sobre a passagem do tempo.



Uma reflexão sobre a passagem do tempo


O espanto de um personagem que vivia longe do lugar onde tinha nascido.
Um dia o personagem resolve reviver o cenário da infância e faz uma descoberta que pode parecer obvia, mas não é.

Os que saem de casa e um dia voltaram estarão sempre condenados em tomar um grande susto.

Descobrem que grandes mudanças acontecem e vão acontecer de qualquer maneira sem que eles precisem estar por perto.

Já  quem nunca saiu do lugar onde nasceu não nota a lenta devastação provocada pela passagem do tempo.

O certo é que o território da infância de cada um de nós um dia se transformará em algo remoto e distante que Gabriel Garcia Márquez chamou de “Paraiso terreno de desolação e nostalgia.”

O lugar onde o menino passou os seus primeiros seis anos da infância foi engolido pelas águas.
Não sobrou quase nada, só restou uma Igreja cercada de água por todos os lados.

Nunca a voracidade do tempo foi tão clara:
A água voraz
O sol voraz
A Saudade voraz

A história da paisagem que a água engoliu aconteceu com o menino.

Mas é a história de cada um e de todos nós, sem exceção, por que cada um de nós tem suas íntimas Catedrais que cedo ou tarde estarão sitiadas pelo tempo.


(Texto: Geneton Moraes Neto. Globonews Documentário “Boa Noite Solidão”.Exibido em 16.01.2016)


segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Outras perdas que tive na vida


                                                                                                Juremir Machado        

Olho da minha janela o sol que se debruça no horizonte e penso no que perdi por estar demasiadamente ocupado tentando ganhar. 
Como no poema de Pablo Neruda, que tanto cito por nele reconhecer a essência do sentimento que em mim se abriga como um cão fiel, perdi de terminar o livro que sempre se escolhe ao crepúsculo. 
Perdi também de olhar o crepúsculo por estar procurando luzes na escuridão das disputas de vaidades. 
Perdi de recordar o que amei por ter de reservar a minha pouca memória para dados que jamais me serviram, embora sejam importantes para a humanidade, o valor do Pi, a fórmula de báskara e os elementos da tabela periódica. 
Perdi o sumo do pêssego descascado à sombra dos cinamomos nas tardes de verão escoadas com a doçura dos melhores dias em família. 
Perdi o gosto da solidão verdadeira e saudável por ter de passar grande parte da vida sozinho no meio da multidão.
Perdi de fazer a viagem de volta por estar sempre obrigado a fazer mais uma viagem de ida para algum lugar imperdível. 
Perdi de curtir o grande lugar admirado por todos por me sentir na obrigação de encontrar o lugarzinho feito só para mim. 
Perdi de recordar certas coisas singelas por estar memorizando tudo o que acabei esquecendo. 
Penso no que esqueci e me surpreendo com cheiros, vozes, risadas e frases que nunca tinha lembrado antes. 
Um amigo, numa tarde de 1973, gritando “vamos jogar”, uma menina, numa noite de 1976, sussurrando “gosto de ti”, outra tarde, lá por 1975, colhendo ameixas num pomar que me parecia a melhor definição do paraíso. 
Perdi a data de uma imagem que me persegue: eu, guri, caminhando só à beira de um mato com os olhos focados na beleza colorida de um maracujá inalcançável.
Por que me vem cada vez mais essa lembrança das coisas perdidas que, no entanto, estão bem guardadas no meu coração?
Por que me vem essa certeza de que perdi de sorrir e de brincar em ocasiões formais por ter acreditado na importância da gravidade como etiqueta? 
Quanta gente perdeu de dançar por ter sempre alguém para cobrar um desempenho melhor? 
Quanta gente perdeu de cantar por medo de desafinar? 
Quanta gente perdeu de falar por temer o arrependimento? 
Bem ou mal, disso me orgulho, nunca perdi de jogar futebol. 
Mas perdi, faz tanto tempo, o cheiro dos melões maduros amarelando na lavoura. Perdi o canto do jacu na quietude da mata. 
Perdi de perder por medo de perder, que é o medo de jogar e de brincar.
Sim, aos poucos, vamos aprendendo a não jogar para não perder. 
Há quem perca a beleza do pôr do sol por ter sido convencido de que é brega. 
Há quem perca o calor do Natal em casa por acreditar que não é moderno. 
Há quem perca o encontro com os amigos por ter de dedicar todo o seu tempo aos inimigos. 
Eu perdi tanta coisa que me faz falta. 
Onde terei deixado meu time de botão? 
Onde terei enterrado o Lobo, meu cachorro e amigo ao longo da adolescência? 
Que fim terá sido dado à bicicleta que foi meu meio de transporte durante oito anos? Eu perdi tempo tentando ganhar tempo. 
Perdi alegria tentando ganhar felicidade. 
Perdi de escrever o que queria por medo de não escrever o que de mim se esperava. 
Perdi de dizer: a vida é boa.

Publicado: Jornal Correio do Povo - Edição de 13.12.15

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Insônia




Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.

Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece

antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.

Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te

importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.

Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o

o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.

E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:

porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?

Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda

mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.


José Luís Peixoto

Gaveta de Papéis-
2008

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Ruínas


Hoje eu vi uma casa em ruínas e lembrei-me de ti: das tuas janelas cheias de esperanças, das minhas portas abertas, das nossas correntes de ar balançando as cortinas.

Lembrei-me daquelas escadas silenciosas que levavam a nada, do quarto que nunca compramos e das noites sem dormir em que nos amamos.

Eu vi os tijolos já sem reboco, rústicos e desnudos, parecendo tão felizes por ainda sustentarem a velha construção.

Hoje eu vi uma casa em ruínas e me senti feliz como uma criança tentando construir castelos do nada.

Por um instante eu fiquei em silêncio desfrutando as recordações que me traz a velha casa, que não é a nossa, mas está cheia de janelas abertas, cortinas, lembranças, escadas que conduzem a toda parte, um quarto em que posso me deitar, correntes de ar e portas abertas.

Hoje eu vi uma casa em ruínas, em ruínas... como tu e eu.


domingo, 8 de março de 2015

O Longínquo Cantar do Carro - Cora Coralina

(...)
“Dizia meu avô:
Quando as coisas ficam ruins,
é sinal de que o bom está perto.
O ruim está sempre abrindo passagem
para o bom.
O errado traz muita experiência
e o bom traz às vezes confusão:
‘Nem sempre assim nem nunca pior’.
Meu avô conhecia todas as verdades
e gastava filosofia de quem muito viveu
e aprendeu.”

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens.

Não chores pelo que perdeste, luta pelo que tens.
Não chores pelo que está morto, luta por aquilo que nasceu em ti.
Não chores por quem te abandonou, luta por quem está contigo.
Não chores por quem te odeia, luta por quem te quer.
Não chores pelo teu passado, luta pelo teu presente.
Não chores pelo teu sofrimento, luta pela tua felicidade.
Com as coisas que nos vão acontecendo vamos aprendendo que nada é impossível de solucionar.
Apenas segue em frente.

Jorge Mario Bergoglio

domingo, 16 de fevereiro de 2014

A Vida




Vejo a vida diferente,
não como muita gente,
um tanto complacente,
com a lei que é vigente.

Vejo a vida sem magia,
vejo a gota que asfixia,
vejo o amor e a poesia,
vejo a fé que inebria.

Vejo a vã teologia,
um açoite que anestesia,
no prazer e na fobia,
no sossego e na aporia.

Vejo a morte sem sentido,
que se esvai como fluido,
nos furtando o ser querido,
para o além que é concebido.

A vida não é só agonia,
têm modéstia e cortesia,
têm esperança e ufania,
têm o sorriso que acaricia.

A vida é uma alegoria,
da realidade do dia-a-dia,
à  procura de uma energia,
que se refaz quando irradia.


JC Coutinho

terça-feira, 3 de setembro de 2013

O tempo



O tempo

O tempo é muito lento para a espera.
O tempo é muito rápido para os medos.
O tempo é muito longo para a tristeza.
O tempo é muito curto para ser feliz.
Mas para o amor o tempo é para a eternidade.

William Shakespeare

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

O Amor

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de *dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar

Fernando Pessoa

quinta-feira, 1 de março de 2012

Valeu a pena...

Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão…
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades e às pessoas,
que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim…
e que valeu a pena."
(Mario Quintana)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Dia dos namorados

Todas aquelas promessas que um dia para ela fizeste
Hoje para outra fazes
Pergunta-se o que mudou
Tu não foste.
Só pode ter sido ela,
Eis a única conclusão lógica.

Secretamente, ela pensa o mesmo.

Com seu novo amante,
Ela se pergunta por que ele não é como tu;
Por que lhe deixou partir;
E por que não pode lhe abraçar uma última vez.

Secretamente, tu pensas o mesmo.

Mas tu segues tua vida,
Assim como ela segue a dela.
Afinal de contas, se há algo a culpar,
Esse algo é a vida, que te distanciou dela.
Além do que, tu nem a amavas tanto assim.
É o que declaras defronte ao espelho dia após dia.

Ela, por sua vez, acredita que seu novo amante é diferente.
Que ele será para ela o homem que tu não foste.

Quanto a ele, bom, ele está só passando o tempo.
Ainda não se deu conta da mulher que tem ao lado.
Mesmo erro que tu cometeste.

A história continua a mesma,
Apenas com diferentes nomes.

(Ricardo Ambros)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Auto-retrato

...o meu mundo não é como o dos outros;
quero demais, exijo demais;
há em mim uma sede de infinito,
uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
pois estou longe de ser uma pessimista;
sou antes uma exaltada,
como uma alma intensa violenta, atormentada,
uma alma que se não sente bem onde esta,
que tem saudades... sei lá de que!

Florbela Espanca

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010